RESENHA | "A MALDIÇÃO" de Stephen King

Sinopse: Advogado bem sucedido e feliz ao lado da esposa e filha, Bill Halleck desfrutava dos prazeres de uma vida sem grandes preocupações. Até o dia em que uma velha cigana se pôs em seu caminho. Ele não conseguiu pisar no freio a tempo. Não conseguiu deter o carro e nem as artimanhas do destino e, ao mesmo tempo em que as rodas esmagavam a senhora, sua vida começava a ser destruída. Não, não foi a implacável justiça americana que pôs fim a seus dias felizes. Na verdade, o júri foi muito compreensivo com o bom amigo, e ele não precisou pagar com a sua liberdade pela vida da cigana. Mas, na saída do tribunal, assustou-se com o rosto carcomido de um velho, seus olhos profundos e, ouviu de seus lábios gretados uma única frase: mais magro. A partir deste dia, mergulha em um pesadelo. Seus 111kg começam a diminuir vertiginosamente. De acordo com os médicos, não há nada de errado com seu organismo que justifique sua perda súbita de peso. Bill Halleck está desaparecendo e se não conseguir deter o processo, em pouco tempo não será mais do que um feixe de ossos. Começa assim uma busca implacável em que Halleck reúne um pouco do que lhe resta de forças e sai a caça de Taduz Lemke. Ele sabe que somente o velho será capaz de mudar seu destino - encontrá-lo é questão de vida ou morte. Abandonado pela esposa e amigos que duvidam de sua sanidade, conta apenas com suas poucas forças e com a ajuda de Richard Ginelle, um gângster perigoso, mas amigo fiel, que se dispõe a tudo para salvá-lo: 111, 98, 71 - Bill tem pouco tempo. Os ponteiros da balança não o deixam se esquecer disso.

O autor Stephen King é uma máquina de escrever livros e isso não é novidade para nenhum leitor que conhece as suas obras. Conhecido como o maior autor com obras já adaptadas, com toda certeza você já se deparou com algum filme inspirado nele sem nem ao menos saber.
Li poucos livros dele ainda. Se for comparar ao tanto de coisa que ele publica desde os anos 70, quase que anualmente ele lançou ao menos um livro ou dois. Então coloquei na minha cabeça que leria todos os seus livros. Todos mesmo. Comecei com essa doideira na semana passada e esse foi o primeiro que li depois desse desafio que lancei para mim mesma (mas não é o primeiro livro dele que li na vida).

O medo se impôs novamente, esgueirando-se como fumaça através de seus vazios - agora pareciam existir muitos vazios nele. Entretanto, a raiva ainda estava presente. 

O livro A Maldição foi lançado originalmente como A Maldição do Cigano. Você o encontra em sebos edições antigas com esse nome e foi lançado originalmente sob o pseudônimo do autor, o Richard Bachman, uma face do autor que possui uma crueza ainda maior em suas obras, uma aura mais pesada e psicológica.
A história gira em torno de Bill/William Halleck, um advogado bem sucedido e consideravelmente acima do peso que vive uma vida pacata e normal com sua esposa Heidi e Linda, sua filha de 14 anos. Sua vida era tranquila e o relacionamento com a esposa também, exceto talvez por reclamações raras dela sobre seu peso, estando preocupada com a sua saúde já que o mesmo comia muito e se cuidava pouco, já tendo sido alertado antes pelo seu médico.
O personagem Bill no começo do livro é completamente neutro. Não é ruim porém não inspira muita simpatia. Ama sua família e é cercado de amigos ricos que não parecem se importar muito com os limites entre certo e errado, coisas das quais ele finge não ver.

- Devia suspender seja qual for a greve de fome que esteja fazendo, sr. Halleck - disse, sem se virar. - Em muitos sentidos, o mundo nada mais é do que um monte de bosta. Mas também pode ser muito bonito.

Um dia, ao voltar para casa após uma saída, sua esposa decide tentar algo mais "quente" para apimentar o relacionamento. Como sempre fora uma mulher mais comportada e nunca tentara nada de diferente fora do quarto, Bill foi pego de surpresa enquanto dirigia, o que o fez perder completamente o foco na estrada, onde uma velha cigana atravessava calma e despreocupadamente sem se importar de olhar para os lados.

E é aí que a história realmente começa. 

A cigana morre com o acidente e Bill, que deveria pagar pelo crime é absolvido pelo juiz que é um  velho amigo. O policial que investigou o caso também ajudou para que isso acontecesse já que não pediu teste do bafômetro nem nada do tipo, afinal, era apenas uma cigana indesejada. E o livro deixa bem claro o quanto os ciganos são indesejados nas cidades quando chegam.
Quando está saindo do tribunal, um velho cigano com o que parece um câncer corroendo a ponta de seu nariz - marido da velha que falecera, talvez? Bill não sabe - para na sua frente e toca seu rosto de forma suave, dizendo apenas duas palavras: "Mais magro"...
Essas palavras apesar de o assustarem, logo são esquecidas e a vida segue. Até os números da balança começarem a diminuir drasticamente. Não demora para que perceba que o velho cigano lhe jogara uma maldição, o condenando a perder peso e ir definhando assim até a morte.

Você fica por ali, pensando que dessa vez, apenas dessa vez, haverá um pouco de justiça... um instante de justiça, como indenização por sua vida de merda. 

O livro vai todo em um ritmo constante. Não achei que teve momentos encalhados e a escrita é bem característica do autor, onde vez ou outra o mesmo para para descrever um fato sem importância de forma mais detalhada sem deixar o tédio tomar conta. Adoro isso em sua escrita. Ele divaga em meio a acontecimentos tensos, deixando o clima mais pesado ainda.
O que mais me prendeu com toda certeza foi a clara mudança do personagem Bill no decorrer do livro. Vemos um cara tranquilo que amava a esposa se tornar um homem obcecado por sobreviver e que começa a nutrir ódio pela mulher, já que achava que a culpa era dela, afinal, ele não havia pedido para ela tentar fazer o que fez. Na verdade, ele começa a culpar não só a esposa, como também a cigana que atravessou para a morte ou até mesmo a sua família que deixara uma mulher tão velha vagar sozinha à noite. Nunca assumiu totalmente a culpa no que fez, achando assim, sua sentença injusta.

"Mais magro", sussurra o velho cigano de nariz carcomido para William Halleck quando ele e sua esposa Heidi saem do tribunal. Apenas estas duas únicas palavras, carregadas pela doçura enjoativa do hálito dele. "Mais magro." E antes que Halleck possa recuar, o velho cigano estica o braço e acaricia-lhe a face com um dedo retorcido. 

Os personagens não são muito aprofundados mas isso não atrapalha a história, até porque não era necessário que soubéssemos de todos os detalhes da vida deles. Vemos que tanto Heidi quanto Linda amam Bill, o que faz a esposa tomar decisões precipitadas. Um personagem que amei foi o Ginelli, o único que acreditou em Bill e o ajudou na sua saga para encontrar os ciganos. Acho que por ter gostado do personagem que era um completo louco de princípios polidos e duvidosos, senti falta de um pouco mais de aprofundamento na história do mesmo. Só dele mesmo. 
O final é surpreendente de uma forma muito boa. É bem ao estilo King e me deixou parada por um momento digerindo sobre o que realmente tinha acabado de ler. Foi um livro que devorei em pouquíssimo tempo e com toda a certeza o meu preferido do autor até agora.
Existe uma adaptação do livro do ano de 1996 mas ainda não assisti então não posso dizer se é tão boa quanto ou se é fiel a obra original. Vou assistir e venho contar para vocês.

Já conheciam o autor ou alguma de suas muitas obras?
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Os 10 livros mais polêmicos da história

Lolita (1997)
Muitos livros são lançados por ano e vez ou outra algum acaba se destacando, seja pela qualidade do conteúdo quanto pelo tema abordado. Muitas vezes acontece até mesmo de um livro ser mais polêmico por assunto no qual ele se desenvolve em determinado momento da história do que pela própria história em si. Durante os anos, alguns livros se destacaram mais do que outros devido ao furor que causaram na época - e que em alguns casos, continuam causando até hoje. Portanto, trago para vocês hoje uma lista com os 10 livros mais polêmicos já lançados. 


10) Deus, um delírio (2006)
Autor: Richard Dawkins
O autor não só expõe vários argumentos tentando provar a inexistência de Deus, como acusa várias religiões de terem cometido atrocidades durante o decorrer da história. O livro ainda levanta muitos debates entre ateus e religiosos até os dias de hoje.

9) Versos Satânicos (1989)
Autor: Salman Rushdie
O livro conta a história de dois muçulmanos que sobreviveram ao atentado de uma bomba em um avião. Após a queda, um deles desenvolve chifres, cascos e um rabo, já o outro, cria uma auréola e sonha em conhecer o profeta Mahound (termo perjorativo para Maomé). A controvérsia foi tanta, que uma recompensa foi oferecida para quem entregasse a cabeça do autor que teve de viver no anonimato. 

8) Lolita (1955)
Autor: Vladmir Nabokov
Sem dúvidas um do mais conhecido da lista, o livro foi rejeitado por muitas editoras. O romance é narrado por Humbert Humbert, um homem de meia idade que se apaixona por Lolita, uma jovem de 12 anos. Através da narrativa do personagem, percebemos que ele tem a total noção de que esse prazer que sente por garotas atingindo a puberdade é errado e o mesmo joga essa culpa em um acontecimento da sua juventude. 

7) Madame Bovary (1857)
Autor: Gustave Flaubert
Devido ao padrão da época de lançamento, o comportamento de Madame Bovary, que comete adultério e possui um consumismo desenfreado que ocasiona em dívidas. O final, trágico e moralista, como previsto. O furor foi tanto que o autor foi julgado por ofender a moral e religião da época. 

6) A Interpretação dos Sonhos (1900)
Autor: Sigmund Freud
Causou polêmica não só por muitas teorias que diziam que os sonhos eram inteligíveis, como também por conta das interpretações sexuais que causaram um furor ainda maior em cima da obra que inspirou o Surrealismo.

5) Os 120 dias de Sodoma (1785)
Autor: Marquês de Sade
Para quem gosta de leituras realmente perturbadoras, esse é a pedida certa. Ele conta a história de quatro homens libertinos que resolvem experimentar a definitiva gratificação sexual através de inúmeras orgias. Então eles se trancam em um castelo com um harém de mais de 40 vítimas, em sua maioria adolescentes e quatro cafetinas. O livro contém escatologia, incesto, tortura, orgia e assassinato. Pois é. 

4) Acerca do infinito, do Universo e dos Mundos (1584)
Autor: Giordano Bruno 
O livro se baseia na teoria de que a Terra não é o centro do Universo e sim que o Universo é infinito  e que o mesmo possuía um número infinito de mundos, todos heliocêntricos, ou seja, com um Sol no centro. O autor foi executado como herege pela Igreja.

3) A Origem das Espécies (1859)
Autor: Charles Darwin
O livro apresenta a teoria da evolução, tendo causado polêmica ao afirmar que o homem era uma forma evoluída dos macacos, o que contradizia o Antigo Testamento da Bíblia.

2) Minha Luta (1925/1926)
Autor: Adolf Hitler
Escrito na prisão, o livro apresenta as ideias racistas e antissemitas de Hitler. Em suas páginas, ele persuadia ao alemães a combaterem os judeus, já que segundo ele, os mesmos queriam dominar o mundo. 

1) Bíblia (ano indeterminado)
Autor: Vários
Dúvidas sobre autoria, veracidade dos fatos, datas e idiomas são argumentos sempre levantados por céticos ao longo dos anos. Trechos como O Pecado Origina, A Criação do Mundo e o Apocalipse sempre são motivos de discussão e polêmica até os dias de hoje.


De todos esses, li apenas Lolita que vale o seu lugar nessa lista. Mas e vocês, já leram algum livro dessa listinha ou conhecem algum que acham que deveria estar aqui?
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RESENHA | "PETER PAN" de J.M. Barrie


Sinopse: Certa noite, um menino um tanto quanto diferente e especial chamado Peter Pan, convida Wendy Darling e seus irmãos para voar, com a ajuda da ciumenta fada Sininho, em direção à Terra do Nunca, uma ilha mágica habitada pelos Meninos Perdidos que não querem crescer. Wendy e os irmãos chegam aquele local distante e descobrem um universo de seres maravilhosos. Porém, Peter Pan tem um inimigo - o terrível Capitão Gancho, comandante de um grupo de piratas em seu temido e sombrio navio, que tentará acabar com a felicidade de Peter e seus amigos.

Resolvi trazer a resenha desse livro que li pela primeira vez há muitos anos mas que marcou a minha memória de tal forma como se fosse ontem. Sempre tive uma paixão pela leitura. Ela conseguia me transportar para diversos mundos e isso me fascinava, mas foi com Peter Pan que essa paixão realmente criou raízes. 
Tenho a minha edição até hoje, com as bordas gastas de tanto ler e carregar comigo. A memória ainda viva das várias aventuras lidas sobre a Terra do Nunca. 

"Pensamentos felizes fazem a gente voar."

Vou ser sincera de que apesar do amor pela obra, nunca assisti ao desenho famoso da Disney, apenas a adaptação de 2003 em live-action e essa consegue ser bem fiel ao livro, apesar de não totalmente. 
A narrativa do livro é bem diferente de tudo que já li. Antes me causava um estranhamento maior já que o li bem nova porém hoje consigo enxergar esse estilo como algo a mais. O autor narra de uma forma lúdica e bonita, fantasiosa. 

"Wendy, qualquer menina vale mais do que dez meninos."

Um exemplo disso são as cenas onde a Senhora Darling que durante as noites vasculha a mente dos filhos para retirar os pensamentos ruins que podem ter aparecido por ali durante os dias, ou o beijo escondido de Wendy, ali, escondido no canto direito de seus lábios. Minha parte preferida é sobre o nascimento das fadas, já que elas nascem do primeiro riso de um bebê. 

"Sabe, Wendy, quando o primeiro bebê riu pela primeira vez, o riso dele quebrou em milhares de pedaços e todos eles saíram pulando, e esse foi o começo das fadas."

J.M. Barrie conseguiu depositar muita doçura em sua narrativa, criando na história uma aura mágica. 
Peter Pan não é uma criança boazinha. Ele é travesso, mimado e egoísta. Sendo o líder dos meninos perdidos, tudo deve ser feito da forma que ele quer. Assim como o próprio Capitão Gancho, que traz questionamentos ao falar sobre si. Os dois personagens são bem ambíguos, não sendo exatamente 'bom e mau'. Afinal, Peter é um líder duro e instável. Chegando ao ponto de "se livrar" dos meninos perdidos que acabam crescendo ou o contradizendo. Entre muitas outras coisas. 

Você conhece aquele lugar entre o dormir e o acordar, o lugar onde você ainda pode lembrar de sonhar? É onde eu sempre te amarei. É onde eu estarei esperando.

Uma das diferenças que notei ao ler esse livro depois de adulta é como a história muda. Há muitas metáforas que antes passavam despercebidas e que hoje só abrilhantam ainda mais a história. Uma mensagem para adultos escondido ali, no que deveria ser uma história doce e infantil.
Já com relação aos pequenos Darling, Wendy vira a "mãe" dos meninos perdidos por ser a única menina ali, que não parece se importar em carregar tal título, contando histórias e ajudando no esconderijo. Ao menos até ela perceber que está se esquecendo dos seus pais, desejando voltar para sua casa. Ela muitas vezes é uma voz da razão no meio de tantos meninos.

Na segunda estrela a direita. Depois em frente até o amanhecer.

Por muito tempo eu criei uma certa obsessão pelo personagem e me lembro de ler muito sobre o autor, que se inspirou não apenas em seu pequeno irmão que morrera quando criança, como em um pequeno garotinho chamado Peter, filho de uma mãe solteira que conhecera e o inspirou profundamente. Um pouco dessa história é contada no filme Em Busca da Terra do Nunca. Fica a indicação aí. 
Mas não pense mal de Peter Pan. Ele é uma criança em muitos sentidos. Dotado de muita inteligência e inocência, sem nenhuma preocupação, ele só quer se divertir, não importa o que custe. O que é basicamente o que uma criança faz.

"As estrelas são bonitas mas não podem tomar parte ativa seja no que for, devem limitar-se apenas a olhar. É um castigo por qualquer coisa que fizeram a muito tempo, e de que nenhuma delas se lembra."

Essa é uma leitura que levo para a vida. Não importa a idade que você tenha, a mensagem que se quis passar no livro vai ser bem recebida. Talvez algumas pessoas não gostem da narrativa por ser mais lenta que a do filme que o tornou mais popular mas é super válido dar uma chance para a leitura. Você termina o livro com uma visão diferente até mesmo do Gancho.
É o meu livro de cabeceira da vida. Minha primeira indicação para todos. Não tem idade mínima para se aventurar pelas páginas da Terra do Nunca.

Nota: ★
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RESENHA | "O PERFUME - HISTÓRIA DE UM ASSASSINO" de Patrick Süskind

 Sinopse: Em Paris, no ano de 1738, nasceu Jean Baptiste Grennouille. Filho de uma feirante, ele veio ao mundo em uma barraca de peixe na cidade mais suja e fedorenta do mundo ocidental no século XVII. Após a morte de sua mãe, sobrevive a doenças e pestes em diversos lares miseráveis. Contra todos os prognósticos, Grennouille acaba desenvolvendo duas características que mudariam a sua vida - ao mesmo tempo que não tinha nenhum cheiro, ele era dotado de um olfato apuradíssimo. Este último talento permite que deixe para trás a pobreza para brilhar na indústria da perfumaria. Mas Grennouille, um personagem amoral, não ambiciona a fama ou fortuna que a sua habilidade poderia lhe proporcionar, mas um poder maior sobre as pessoas, baseado na sedução dos odores sobre a alma humana. Assim, Grennouille dedica-se obsessivamente, e sem recuar diante do crime, à preparação de um perfume literalmente irresistível, que permitisse conquistar e dominar qualquer um que o sentisse.

Um bom livro é aquele que nos prende do começo ao fim, que nos deixa fascinado não apenas pela história em si como também pela forma como as palavras nos guiam através dos acontecimentos. Me senti assim lendo esse livro. Ele foi lançado em 1985, mesmo ano da edição que eu tenho aqui. Já tinha ouvido falar apenas do filme, porém nunca tinha o assistido. Me pareceu ser apenas mais uma história de psicopatas. Em mais uma de minhas aventuras pelo sebo, esse livro foi colocado em meu caminho e virou uma parte de mim nos dias que se seguiram pois não desgrudei dele até o fim.

E como todos os monstros geniais, aos quais um evento externo deita um trilho reto dentro da caótica espiral de suas almas, Grenouille não se desviou mais daquilo que acreditava ter reconhecido como direcionamento do seu destino. Agora se tornou claro para ele porque se atinha de modo tão tenaz a sua vida: tinha de ser um criador de perfumes. E não um qualquer. O maior perfumista de todos os tempos. - Página 49

Juro que eu não imaginei que fosse gostar tanto. A história é simples e fluída. Do tipo que você lê sem nenhuma dificuldade e que quando percebe, o livro já caminha para o fim. O enredo nos conta a história, desde seu nascimento, de Jean-Baptiste Grenouille, um rapaz que não tem cheiro porém que tem o olfato tão sensível que consegue sentir o cheiro de tudo e todos. Cada pedrinha no chão, cabelo, cada objeto. Tudo. O que faz com que ele "veja" mais através dos cheiros do que pelos olhos em si, como um predador muito silencioso, observador e extremamente perigoso.

Centenas de milhares de odores não pareciam ter mais nenhum valor diante desse único aroma. Este era o supremo princípio, de acordo com que os demais deveriam de se ordenar. Era a pura beleza, beleza pura. - Página 46

Desde o seu nascimento, Jean-Baptiste é rejeitado. Pela mãe, pelos padres e amas de leite. As pessoas se sentiam invadidas, ameaçadas pelo jovem que parecia saber tudo sobre eles apenas através de seus cheiros. Apesar da vida sofrida, das doenças e maus tratos, indo contra todas as expectativas da época, Grennouille cresce sem se deixar ser derrubado. 
O personagem é quieto, inteligente, observador e extremamente ambicioso. Principalmente quando, ao perceber a sua falta de cheiro natural, algo que o chocara extremamente já que para ele, não havia nada no mundo que não cheirasse, decide criar um odor para si. Algo que faça com que todos o amem, o vejam. E ele já tivera a oportunidade de conhecer alguém que carregava esse cheiro. Uma jovem de cabelos ruivos que ainda não desabrochara totalmente para a vida adulta, onde seu cheiro chegaria em seu ápice. Mas ele podia esperar. Tinha tempo, apesar de estar ansioso. Até lá, poderia aperfeiçoar a melhor forma de extrair o perfume de algo vivo. 

Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até  sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar, gritar e chorar, chorar de prazer, sem saber o por quê, cair de joelhos (...) Queria ser o Deus onipotente do aroma, como fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que isso estava em seu poder. Pois as pessoas podem fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. - Página 162

Os assassinatos não são em nenhum momento o grande foco do livro e sim o próprio assassino. Ele é um homem que não conhece do amor. A primeira vez em que mata no livro me chocou porque era nítido que todo o prazer que estupradores sentem ao abusarem de uma vítima, ele sentia apenas ao cheirá-la. Era algo íntimo e assustador. 
Mantendo esse foco, por saber que os cheiros, mesmo que as pessoas não percebam, podem influenciar as massas, ele se prepara pacientemente para alcançar seu objetivo. Sem pressa alguma. O final do livro foi bem surpreendente porém satisfatório. Me deixou por um momento perdida nos meus pensamentos sobre o que havia acabado de ler.

Não havia brilho louco em seus olhos nem uma louca máscara lhe vestiu o rosto. Não estava fora de si. Estava com o espírito tão claro e alegre que até ficou se perguntando por que queria isso. E disse para si mesmo que o queria por ser a última e absoluta maldade. E deu uma risadinha muito satisfeita. Pareca completamente inocente, como qualquer homem que está feliz. - Página 163

O livro é narrado em terceira pessoa através de diálogos rápidos. Eu achei que por se passar em meados de 1700, a narrativa seria toda rebuscada mas não é o caso aqui. Apenas vez ou outra que vi a leitura empacar um pouquinho mas nada tão gritante. Também não é o tipo de livro para chocar, deixar desconfortável. Ele traz é um questionamento: vale a pena tudo para conseguir alcançar seu objetivo?

Nota: ★
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RESENHA | "O CHAMADO DE CTHULHU E OUTROS CONTOS” de H.P. Lovecraft


Sinopse: O conto que dá o nome à coletânea é um dos grandes clássicos do horror do século XX. O livro reúne ainda outros seis textos escritos o longo da vida do autor, desde a sua estréia com Dagon até pouco antes de sua morte. Contém o inédito A Música de Erich Zann, considerado pelo próprio Lovecraft um dos seus melhores escritos. No apêndice, o leitor encontrará ainda a carta do escritor ao amigo R.Michael em que fala sobre sua personalidade e sua vida. Em um artigo em que discute o método que empregava na criação de seus contos.

Já deu para perceber pela postagem anterior que finalmente ler uma obra de H.P. Lovecraft mexeu muito comigo. Ainda não havia tido a oportunidade de viajar por entre seus contos e quando finalmente o fiz, pude perceber e entender o motivo de seu grande sucesso por entre os amantes do horror. Comprei um box com 3 livros da Editora Chronos e vou resenhar um por um aqui no blog. Os contos do livro não são do tipo repleto de sangue, fantasmas e psicopatas. Não! Lovecraft tababalhou apenas com monstros e criaturas extraordinárias, do tipo que não se pode nem ao menos medir o tamanho de sua força ou conseguir pronunciar os seus nomes da forma correta. Por isso, não fique bravo se já tentou pronunciar a palavra Cthulhu, o nome de seu monstro mais famoso, e não conseguiu. Ele é impronunciável para os humanos, é mais do que normal não conseguirmos dizê-lo da forma correta. 

As criaturas sempre estiveram ali, esperando o momento para saírem de onde quer que estiverem e não teriam nenhuma dificuldade de dominar a raça humana caso desejassem. Os personagens que têm o infortúnio de conhecê-los, são levados lentamente a loucura e é esse o terror presente em grande parte dos contos do livro. É ver o terror tomando conta dos personagens, seus medos, o desejo de ter continuado na ignorância total, saber o quão insignificante é a raça humana. 
O livro é bem simples de ler. E a cada conto, há uma ilustração incrível.

Os contos do livro são: 

 * O Chamado de Cthulhu: Sem sombra de dúvidas, o conto mais famoso do autor. Ele é dividido em três capítulos e é o mais longo do livro. Você sente a tensão em cada página, sente o medo do narrador a cada descoberta, a ambientação e o mistério. É uma leitura fácil, viciante e que te prende, que foi escrito sem pressa e detalhadamente, sem ser cansativo. Te prende demais e me fez entender finalmente o motivo de todo o seu sucesso. Sem contar que os detalhes e a forma como o monstro Cthulhu é apresentado foi incrível, afinal, a maior parte do terror ali não é o monstro em si mas a reação dos personagens para com ele. O medo que toma conta de todos pouco a pouco. É uma leitura obrigatória para os fãs do terror. 

* A Música de Erich Zann: Esse foi de longe o conto que mais me prendeu do livro inteiro. Me deixou bem curiosa e me fez ler desesperada para saber o final, mesmo tendo apenas dez páginas. O conto começa com um rapaz procurando uma casa na Rue D'Ausei. Ele diz sobre o quanto procura o lugar de todas as formas possíveis e que é como se nunca houvesse existido tal. Se não fosse o fato de ele já ter morado lá, até mesmo o próprio acreditaria nisso, que nunca existira. Então, ele começa a nos contar sobre o tempo que morou lá. A rua era um lugar digno de filmes do Tim Burton: escura, poucas pessoas e prédios feios e curvados. Ao encontrar quarto em um local como um pequeno hotel praticamente vazio, ouve uma melodia que nunca escutara antes vindo de um dos quartos. O dono do local fala que a música é de Erich Zann, um cara mudo, estranho e nem um pouco sociável. O interesse do narrador pelo músico aumenta a cada dia que passa, a cada nota ouvida, porém o homem parece odiar qualquer proximidade que o jovem tenta. Quando o velho músico finalmente cede um pouco e eles se aproximam mais, o jovem finalmente descobre o segredo das melodias que ouve o homem tocar. 

* Dagon: Na minha opinião, esse conto se assemelha muito ao Cthulhu. Não apenas em narrativa como também na forma de descrevê-lo em si apesar da escrita ser mais simples. Um homem, sobrevivente da Grande Guerra se vê perdido em uma ilha estranha e resolve explorar o local grotesco e esquisito. A narrativa maravilhosa de Lovecraft nos põe na mente do personagem, sabendo cada sensação e pensamento do mesmo, entendendo o seu medo, curiosidade e desejo de sobreviver ao se ver ali, perdido.

* Os Gatos de Ulthar: Um casal de idosos é famoso em sua região por matar todos os gatos que entram em sua propriedade. Os dois são tão assustadores que a cidade, ao invés de confrontá-los por conta de sua crueldade, apenas tentam prender seus bichanos em casa e ficam tristes quando eles escapam para a casa dos velhos. Porém um dia, um grupo de ciganos passa pelo local e o amado gatinho preto, única lembrança dos pais de um garotinho órfão do grupo, desaparece. Ao saber do terrível destino do seu querido animal, lança uma maldição para que o casal tenha o que merece. De todos os contos do livro, esse é o mais curto e o que menos me prendeu. Acho que justamente por ser tão curto, não tive aquele apego todo pela história, porém é um bom conto, apenas o mais fraco do livro. 

* A Verdade sobre o falecido Arthur Jermyn e sua família: Uma família estranha com uma história estranha, onde a linhagem está quase acabando, seus entes sempre tendo um fim trágico ou estranho. O conto já começa nos dizendo que Arthur Jermyn havia se matado. Jogara óleo em seu corpo e se incediara. Depois disso, a história vai nos mostrando desde o início o que levou o rapaz a tal atitude. O jovem decide entender mais sobre a história esquisita de sua família, estudá-la. Ele parece ser o único "normal" de toda a sua estranha linhagem, repleta de bizarrices e tragédias. Quanto mais fundo ele adentra na história de sua árvore genealógica, mais percebe que não sabia de nada e que talvez fosse melhor não saber. Essa história é estranha e bizarra. Não acho que vá agradar a todos porém vale a leitura, afinal, você fica tentando entender o que levou um rapaz aparentemente tão brilhante a tal ato extremo. O que o assustara tanto? 

* A Casa Abandonada: O último conto do livro é sobre uma casa que por anos trouxe a desgraça a todos os que moravam nela. Sugando a sua sanidade e saúde, ela conseguiu levar as pessoas que moravam ali à loucura. Após ela passar por gerações, alguém finalmente decide colocá-la a venda, afinal, está sendo devorada pelo tempo, com mofo e cogumelos que parecem brilhar estranhamente no escuro. Até que antes de a venda ser concluída, um homem e seu tio decidem passar a noite ali no porão da casa para investigar e se necessário, brigar e por um fim no que quer que rondasse a casa. O que os dois não esperavam era que a casa não iria deixar que descansassem em paz aquela noite. Esse conto também é ótimo. O único do livro com o tema de assombrações em si. A narrativa é um pouco mais corrida, na minha opinião, principalmente nas cenas do porão para combinar com o desespero e o medo. Não foi o meu preferido do livro porém não deixa de ser ótimo. 


Nota: ★


Foi muito difícil de me segurar para não contar tudo nessa resenha para vocês porque todos os contos foram ótimos. Já leram algo de Lovecraft?
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