ENTREVISTA COM O AUTOR | ZEKA SIXX - Parágrafo Cult

ENTREVISTA COM O AUTOR | ZEKA SIXX

Publicado em domingo, 9 de agosto de 2020

Desde a época do meu outro blog, tive a sorte de conhecer vários autores, alguns dos quais tenho contato até hoje. Nos últimos tempos, a literatura nacional tem ganhado cada vez mais espaço nas estantes dos leitores e isso me deixa muito feliz, estamos indo longe. 
Aproveitando isso, trouxe uma pequena entrevista que fiz com Zeka Sixx, o autor do livro Tudo o que poderíamos ter sido, que até tem resenha aqui no blog. Espero que gostem de onhecer mais do autor e de sua obra.


Parágrafo Cult: Quando foi que começou a escrever? 

Sempre gostei de escrever, desde os tempos do colégio. Adorava ter que escrever uma redação inteira nas provas de Português. Mas comecei a levar a escrita mais a sério a partir dos 18 anos, quando comecei a escrever contos. Passei mais de uma década produzindo contos: alguns foram publicados em jornais ou revistas, e outros na internet. Em 2015, decidi reunir os contos que julgava melhores e os publiquei no meu primeiro livro, "O Caminho dos Excessos".


PC: Dos livros que escreveu, tem algum que é o seu preferido? Fale um pouco sobre ele.
Tenho carinho por todos os meus livros, porque todos foram muito significantes para mim, quando penso no momento que estava vivendo quando eles foram escritos e/ou lançados. Mas, se tivesse de escolher apenas um, certamente seria o meu último, "Tudo o que Poderíamos Ter Sido". É, sem dúvidas, o livro no qual atingi a maturidade como escritor.  O livro tem como tema principal a questão de como a passagem do tempo destrói nossos sonhos e nossas ilusões, tornando-nos caricaturas daquilo que pensávamos que um dia poderíamos ter sido. Ao longo de toda a história, há sempre aquela sensação, transmitida pelos personagens, de que "nossos melhores dias ficaram para trás", de que já atingimos o nosso auge e tudo o que resta, agora, é assistir ao inevitável declínio. Narrado sob o ponto de vista de três jovens entre os vinte e muitos e os trinta e poucos anos, tendo como cenário uma Porto Alegre à época da votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016,  "Tudo o que Poderíamos Ter Sido" arrasta o leitor para uma jornada repleta de autodestruição, niilismo e citações à cultura pop, à base de noites insones, sexo casual e festas regadas a rock-and-roll e litros de bebida alcoólica.

PC: Qual foi a sua maior influência quando decidiu se tornar escritor? 
A maior influência, com certeza, foi Henry Miller. Quando eu tinha 18 anos, ganhei de presente da minha mãe a "Trilogia da Crucificação Encarnada": "Sexus" (1949), "Plexus" (1953) e "Nexus" (1960), que ela havia encontrado em um sebo a preço de banana. Foi quando fui realmente seduzido pela ideia de que era possível escrever sem pensar em se submeter às normas morais impostas pela sociedade.

PC: O que mais impactou a sua trajetória como escritor?
Bom, se eu quisesse ser clichê, eu poderia dizer que foi o coronavírus, que liquidou com o lançamento do livro que, na minha cabeça, me levaria ao "estrelato": "Tudo o que Poderíamos Ter Sido". Mas acho que vou ficar com a recepção morna que meu livro de estreia - "O Caminho dos Excessos" - causou. Foi a pouca aceitação daquele livro que me levou a provar a mim mesmo que poderia escrever romances "pop" - ainda que bagaceiros -. "A Era de Ouro do Pornô" e "Tudo o que Poderíamos Ter Sido" surgiram desse desafio que impus a mim mesmo de provar que poderia escrever histórias cinematográficas.

PC: Seu livro "Tudo o que poderíamos ter sido" se mostrou uma das melhores leituras nacionais para o blog. Foi difícil escrevê-lo? Qual foi a sua maior inspiração para ele?
Primeiramente, quero dizer que fico MUITO feliz que o livro tenha te impactado tão positivamente. Nunca escrevi meu romance com a pretensão de que ele fosse levado a sério, mas sim com a pretensão de que ele retratasse pessoas reais, pessoas que poderiam ser nossos vizinhos/amigos/parentes. O que eu queria era criar uma história verossímil sobre a apatia de uma geração. Logo depois do lançamento do meu primeiro romance, "A Era de Ouro do Pornô", em 2016, eu já tinha criado na cabeça o esboço do meu novo romance. Defini que ele seria narrado por múltiplos personagens, e que a protagonista seria feminina. Desde o início, a personagem Lola já havia surgido na minha cabeça como a (anti)-heroína que eu queria. O espaço de quatro anos entre um romance e outro foi causado por outras questões: o nascimento do meu filho, em 2017, o que me levou a dar um tempo da literatura, e também o fato de que foi um processo um pouco longo para me desapegar de Max Califórnia, o protagonista de "A Era de Ouro do Pornô": foi muito tempo investido em pensar como ele pensaria, escrever como ele escreveria. Por causa disso, fiquei por quase 2 anos apenas compilando notas para "Tudo o que Poderíamos Ter Sido". Mas, quando enfim decidi começar a escrever, o processo foi relativamente rápido: escrevi o livro em 5 meses, entre abril e agosto de 2019.

PC: Falando sobre seu último livro, uma das coisas mais marcantes dele foi a playlist maravilhosa. Como surgiu a ideia de transformar a música em algo tão importante no livro?
A música sempre foi um elemento muito importante da minha narrativa. Isso começou, em especial, no meu primeiro romance, "A Era de Ouro do Pornô", que também tinha uma playlist própria. A verdade é que a minha inspiração vem muito da música. Muitas vezes, indo ou voltando do trabalho, eu escutava uma música no carro e imediatamente visualizava uma cena inteira acontecendo ao som daquela música. Sem contar que trabalhei durante muito tempo como DJ, o que me motivou ainda mais a querer dar uma "trilha sonora" aos meus livros, uma trilha marcante, tal qual Tarantino faz com seus filmes.

PC: O que te levou a utilizar do cenário político brasileiro como pano de fundo para escrever "Tudo o que poderíamos ter sido"?
Meu primeiro romance, "A Era de Ouro do Pornô", se passa no final de 2012. Tal escolha não foi aleatória: eu queria que o livro demonstrasse aquele último período no qual fomos alienados e otimistas, no qual acreditávamos que o Brasil era o "país do futuro". Foi o último instante antes dos protestos de 2013, antes da divisão "petralhas x coxinhas", antes da explosão do feminismo moderno, e eu quis expllorar isso. Já em "Tudo o que Poderíamos Ter Sido", eu quis situar os personagens em meio ao circo pegando fogo: os "fora Dilma" x os "É Golpe", os "Não Vai Ter Golpe" x os "A culpa não é minha, eu votei no Aécio". E eu quis demonstrar o ridículo de cada uma dessas posiçôes: César é o típico alienado que, ali adiante, em 2018, fatalmente acabará votando em Bolsonaro com base no argumento de que "qualquer coisa menos o PT". Júlia, por sua vez, é a típica "socialista de Iphone". E Lola é aquela que quer que tudo se foda, e aqui reproduzo uma passagem do livro, narrada por ela:

"Essa suposta politização   do povo brasileiro foi o que de pior nos poderia ter acontecido: a alienação ainda é melhor do que crenças cegas. Não sabemos votar, ponto. Erramos ao eleger Collor. Tudo indica que erramos ao eleger Lula e, por consequência, Dilma. Erraremos novamente em dois mil e dezoito, alguém tem qualquer dúvida? Vamos aceitar nossa insignifi cância e parar de acreditar que políticos mudarão nossas vidas. “Não há destino exceto aquele que criamos para nós mesmos”. Amém, Sarah Connor! Éramos assim há até pouco tempo. Mas, desde dois mil e quatorze, quando a Dilma se reelegeu com as calças na mão, estamos em um eterno confl ito entre “coxinhas” e “petralhas”; “feminazis” e “machistas-que-não-passarão”; “fascistas” e “esquerdopatas”; “é golpe” e “não é golpe”; e assim por diante. Quem não toma partido é um pária — o famigerado “isentão”. Meu Deus, um dia ainda olharemos para trás e morreremos de vergonha de ter rompido amizades e namoros, de ter cortado relações com familiares e vizinhos para defender com unhas e dentes um bando de políticos escroques. Quando deixamos de ser apenas o folclórico país da bunda, do futebol e do Carnaval para nos tornarmos o país dos batedores de panela, deixamos de ser uma piada inofensiva e viramos uma piada de péssimo gosto".  


PC: Dos personagens que criou, qual o seu preferido e com qual mais se identifica?
Tenho carinho especial por Max, o protagonista de "A Era de Ouro do Pornô", e por Lola, o "furacão" que protagoniza "Tudo o que Poderíamos Ter Sido". Mas minha verdadeira paixão é Bianca, a escritora "maldita", que faz papel secundário em ambos os livros.

PC: Qual a sua rotina de escrita?
Não tenho uma rotina pré-definida. Por vezes, fico longos períodos sem escrever. Mas estou sempre compilando notas, ideias soltas, no celular ou no computador. Depois que tenho as ideias alinhadas na cabeça, a coisa flui naturalmente, e em questão de 5-6 meses um romance vem à luz.

PC: Como a literatura entrou na sua vida?
Acredito que foi muito por influência dos meus pais, em especial da minha mãe, que sempre gostou muito de ler. Minha casa sempre foi uma verdadeira biblioteca, e minha mãe, que também é escritora, sempre fez questão de me incentivar tanto a ler quanto a escrever.

PC: De onde vem a sua inspiração?
De todos os lugares: da vida  - a minha própria ou a de amigos e pessoas próximas - e também da cultura pop: livros, filmes e músicas sempre foram ótimas fontes de inspiração.

PC: Quais escritores e livros mais te inspiram?
Vou citar meus cinco livros favoritos: "Trópico de Câncer" (Henry Miller), "Pergunte ao Pó" (John Fante), "Factótum" (Charles Bukowski), "Abaixo de Zero" (Bret Easton Ellis) e Hell (Lolita Pille).


RESPONDA RÁPIDO
O que está lendo no momento? "Sonhos de Bunker Hill", que foi o último romance escrito por John Fante, quando ele já estava cego por causa do diabetes e tinha de ditar os seus escritos à sua esposa.
Livro favorito/inesquecível: "Trópico de Câncer", de Henry Miller.
Autor preferido: Henry Miller.
Um livro que gostaria de ter escrito: "Pornopopeia", de Reinaldo Moraes. Para mim, é o melhor livro brasileiro escrito no século XXI.
Último livro que leu: "Extemporâneo", um livro de poemas de Delalves Costa, lançado pela minha editora, a Coralina.
Último livro que te fez chorar: Acho que nenhum livro me fez chorar, mas "Minha Sombria Vanessa", de Kate Elizabeth Russell, foi uma leitura bem forte - e marcante - que fiz esse ano
Primeiro livro que leu: Nenhuma ideia. Mas lembro de, já na adolescência, ter sido muito impactado por "Christine", do Stephen King,
Último livro que te fez rir: "Snuff", do Chuck Palahniuk, com todas as suas citações a filmes-paródia produzidos pela indústria pornográfica. Aliás, fui atrás da obra do Palahniuk por influência tua, Larissa. ;)
Livro que gostaria que todo mundo lesse: Aqui vou ser totalmente narcisista, mas vai lá: "Tudo o que Poderíamos Ter Sido", de Zeka Sixx
O último livro que não conseguiu finalizar: Sempre termino de ler o que começo, mas "A Metamorfose", do Kafka, foi um duro desafio pra mim. Achei um porre absoluto.

Links importantes do autor e seu livro "Tudo o que poderíamos ter sido":

11 comentários:

  1. Oi, Larissa como vai? Adorei a entrevista, ficou maravilhosa. É sempre bom saber mais sobre os escritores e escritoras de nosso país. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Oi, Larissa. Li a entrevista. Bem legal seu questionário. Tudo de bom pra você, querida!

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  3. Olá. Adorei a entrevista.
    Beijinhos.
    www.lewestinblog.com

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  4. Olá! Eu conheço o autor, foi o primeiro com quem o blog fez parceria anos atrás, e de fato o Zeka escreve de uma forma bem interessante. O fato de seus personagens se sentirem meio que em um limbo me faz identificar bastante com seus protagonistas. Esse ainda não li, mas parece ser uma obra incrível. É muito legal saber mais da trajetória dele e seu processo de escrita.
    Beijo!
    http://www.capitulotreze.com.br/

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  5. Ótimos questionamentos e eu acho sempre importante trazer um assunto político na literatura, seja direta ou indiretamente.

    Beijos
    http://www.leiapop.com/

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  6. Olá...
    Ainda não conhecia o autor, mas, amei poder conferir a entrevista, pois, assim tive a oportunidade de conhecê-lo melhor e conhecer um pouco sobre seu livro. Fiquei com vontade de ler algo dele ;)
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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  7. Amei a entrevista. Ainda não o conhecia e já estou bem curiosa para ler os trabalhos dele
    beijos
    https://www.dearlytay.com.br/

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  8. Adorei a entrevista!
    Eu só conhecia o autor de nome mesmo, por causa do A Era de Ouro do Pornô. Não sabia que ele tinha essa quantidade de trabalhos lançados.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  9. Amei essa entrevista. É muito bom para conhecermos mais o autor dos livros que tanto gostamos, nos sentimos mais próximos, né? Eu tenho o último livro dele, mas ainda não tive a oportunidade de ler. Mas é bom saber que te impactou positivamente. =)
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  10. Oi, Larissa!
    Amei a entrevista! Já conhecia o autor, apesar de nunca ter lido nada dele. É esse tipo de post que me impulsiona, e me faz ter vontade de jogar a preguiça pra longe e começar a escrever pra valer :D

    Estante Bibliográfica

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  11. Oi Larissa,
    Não é meu tipo de leitura, mas gostei de conhecer o autor. Desejo muito sucesso!
    beijo
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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