Foto: Acervo Pessoal - Parágrafo Cult

Editora: 
Ciranda Cultural |  Páginas: 319  |  Ano: 2019  |  Gênero: Ficção, infanto-juvenil

Sinopse: Anne é uma pobre orfã que foi enviada por engano para a fazenda de Green Gables, pois os irmãos Matthew e Marilla tinham a intenção de adotar um menino para auxiliar nos trabalhos domésticos. Com pena da pobre garota, os dois resolveram mantê-la na fazenda ao descobrirem que, definitivamente, era uma menininha diferente de todas as outras. Com seus longos cabelos ruivos, seus olhos acinzentados e uma imaginação que lhe permitia viver muitas fantasias, mas que a metia em muitas confusões também, Anne traz reflexões pertinentes sobre os obstáculos da vida de qualquer pré-adolescente. 

Por conta da série Anne With an E da Netflix, eu me apaixonei por Anne Shirley e Green Gables. Não fazia ideia de que se tratava de uma série literária até pouco tempo atrás e quando descobri, já me pus a procurar os livros para poder ler sobre, afinal, queria saber o que aconteceria nas próximas temporadas caso a mesma se mantivesse fiel a obra original.

A senhora Spencer disse que era maldade minha falar desse jeito, mas minha intenção não foi ser má. É fácil demais ser mau sem se dar conta disso, não é? 

Infelizmente a série foi cancelada agora na terceira temporada mas as obras literárias são em torno de 6 ou 7 sobre Anne. O livro é todo focado nela, a garotinha tagarela de cabelos vermelhos, rosto sardento e imaginação fértil. Anne consegue conquistar todos que a cercam. Apesar de ter tido uma vida difícil, a garota se ateve fortemente a sua imaginação fértil pois isso lhe permitia viajar para outras realidades, ser o que quisesse, fugir mesmo que por alguns momentos de onde se encontrava.

 - Bem, não estou certa. - Anne pareceu pensativa. - Certa vez, li em um livro que se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume, mas nunca consegui acreditar nisso. Não acredito que uma rosa seria tão agradável se fosse chamada de cardo ou repolho-de-gambá. 

Anne é doce. Um amor de criança com seus onze anos de idade. É bem madura porém ao mesmo tempo é pura inocência. Ela só quer ser amada e ter um lugar para chamar de casa e por conta disso, vai aos céus quando vê que será adotada. Ao menos até perceber que tudo não passou de um engano. Os irmãos Matthew e Marilla já não eram mais jovens e por isso planejavam adotar um garoto para ajudá-los nos trabalhos da fazenda. 

Para Anne, levar as coisas com calma seria mudar sua natureza. Sendo toda "espírito, fogo e orvalho", os prazeres e as dores da vida eram recebidos por ela com tripla intensidade. Marilla percebia , e se preocupava vagamente com isso, dando-se conta de que os altos e baixos da existência provavelmente seriam um fardo pesado para aquela alma impulsiva, mas sem entender totalmente que a capacidade igualmente intensa de ela se deleitar talvez compensasse isso e um pouco mais.

Porém, Matthew, que fora buscar o "garoto", foi completamente fisgado por Anne, que não parava de tagarelar sobre tudo que via. Pronto. Ele fora fisgado ali. Sabia que Marilla, que era bem mais fria do que ele, não aceitaria ficar com uma orfã que fora enviada por engano para a fazenda de Green Gables em Avonlea, porém ele a queria. Já sentia que Anne pertencia a ele e vice-versa. A relação paternal entre Anne e Matthew me emocionou em muitos momentos. O amor de um pelo outro é nítido, cheio de parceria e carinho. Marilla também não fica para trás porém não é tão mole quanto o irmão. Ela é mais rígida e não sabe expressar muito bem o que sente mas em seu coração, não consegue mais se imaginar sem a criança que já amava como filha.

Marilla olhou para ela com uma ternura que jamais teria se permitido revelar em uma luz mais clara do que aquela mistura suave de brilho do fogo e sombras. A lição de um amor que deveria ser demonstrado facilmente com palavras ou com um olhar visível era uma que Marilla jamais seria capaz de aprender. 

A obra toda se passa até Anne fazer 16 anos. Apesar disso, não é um livro corrido. O tempo passa naturalmente e você nem percebe, as passagens de tempo não incomodam. Vemos a garotinha cheia de sardas se meter em muitas confusões por conta de seu temperamento e imaginação fértil, isso se não contarmos também as suas respostas rápidas e impulsividade. Uma das que mais ri, foi quando ela pintou seu cabelo de verde em uma tentativa de deixar os fios pretos, o que acaba fazendo com que Marilla tivesse que cortá-lo já que o mesmo ficara em um estado tão crítico que não tinha mais salvação. 

 - A menina Anne está melhorando constantemente - disse ela. - Eu me canso das outras meninas, pois elas têm uma mesmisse eterna e irritante. Anne tem tantas nuances quanto o arco-íris, e cada nuance é a mais bonita que há enquanto dura. Não sei se ela é tão divertida quanto quando era criança, mas ela faz com que eu a ame, e gosto de pessoas que fazem com que eu as ame. Isso me poupa o enorme trabalho de fazer a mim mesma amá-las.

Apesar de tudo, Anne é só uma criança e portanto, em muitos momentos ela age como uma. Me irritei um pouco com a birra dela com seu colega de classe, o Gilbert Blythe, por ele tê-la chamado de "Cenouras" e puxado uma de suas tranças. Dois anos de birra com o garoto só por conta disso, mesmo ele pedindo desculpas e tentando se aproximar. Ficou bem óbvio que quando ela respondeu a provocação batendo com sua lousa no rosto dele - na época em que o livro se passa, não era comum a utilização de cadernos em sala de aula, e sim de um pequeno quadro-negro por aluno -, Gilbert caiu de amores por ela. Anne amava e odiava com a mesma intensidade, portanto o garoto teve que se esforçar de verdade para conseguir sua amizade. Aqui no livro ele não só é bem mais presente na vida da menina, como seu amor por Anne fica bem na cara desde o início, ao contrário da série. Ele corre bastante atrás dela e quando finalmente consegue seu perdão, vira um querido amigo, do tipo paciente, esperando seu momento e oportunidade de entrar no coração da jovem. Seus cabelos ruivos e sardas a incomodavam muito e isso era algo que ela sempre comentava, sobre o quanto queria que seus cabelos fossem escuros como o de sua amiga Diana ou que suas sardas sumissem e os cabelos ficassem em um lindo tom acaju. 

Gilbert Blythe não estava acostumado a se dar o trabalho de fazer com que uma garota olhasse para ele e fracassar nisso. Ela deveria olhar para ele, aquela tal de Shirley, ruiva e com o queixinho pontudo e olhos grandes que não eram como os olhos de nenhuma garota de Avonlea. 

Falando nisso, a amizade dela com Diana é linda. As duas realmente se amam e em nenhum momento dessa irmandade há algum espaço para inveja ou qualquer coisa do tipo. Uma está sempre tentando deixar a outra bem e isso é muito fofo de se ler. 

O livro não é tão militante como a série, que aborda temas feminismo, racismo e homossexualidade - entre outros tópicos importantes - porém tem seus momentos e quando quer falar sobre algum tema do tipo, isso é feito de forma bem sutil. Não podemos esquecer que a obra original, conhecida como Anne de Green Gables foi originalmente escrita em 1908 e portanto, apesar de ter assuntos muito avançados para a época, ele não é tão atual como na série mas para 1908, ele estava bem a frente de seu tempo. É uma leitura bem leve e gostosa para quem curte o gênero infanto-juvenil. Anne Shirley é uma personagem maravilhosa, inteligente, querida e desastrada, completamente fácil de amar. Mas não nego que não acho que todos os leitores amariam esse tipo de leitura, com muitos momentos parados sobre o cotidiano dela em meio a devaneios infantis.

Nota: 4,5 / 5,0