Foto: Acervo Pessoal - Parágrafo Cult
Editora: Darkside  |  Páginas: 272  |  Ano: 2018  |  Gênero: Ficção
Sinopse: E se a morte não fosse o fim para quem deseja vingança? A partir de uma tragédia pessoal, James O'Barr criou a história de Eric Draven, o protagonista de O Corvo que retorna para perseguir seus assassinos depois que estes interromperam uma vida de sonhos ao lado de sua amada Shelly. Sucesso desde quando começou a ser publicada de forma seriada e independente, em 1981, a jornada espiritual e a incapacidade de vencer o luto tocaram fundo os leitores que se aproximaram de O'Barr, muitos de forma reverente. Outra tragédia marcaria o personagem: na adaptação de O Corvo para o cinema, Brandon Lee, que interpretava o protagonista, foi morto acidentalmente durante as filmagens por uma bala de verdade, que deveria ser de festim. Todos esses incidentes, aliados à arte em preto e branco, as citações musicais de ícones do pós-punk e o lirismo de James O'Barr, carregam a graphic novel com uma sombria melancolia que cativou e tocou o coração dos leitores ao redor do planeta. 

Sendo sincera, nem sei bem como começar essa resenha. Estava há tempos com essa graphic novel aqui em casa e por mais que estivesse doida para ler, enrolei até o último minuto. Agora, tendo findado a leitura, posso dizer com toda a certeza de que me arrependo por não ter lido antes. 
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Toda a história por trás de O Corvo é bem pesada. O autor, James O'Barr se inspirou em uma experiência pessoal para escrever a história. Na introdução da obra ele nos diz sobre uma tragédia pessoal, um acidente onde perdera sua namorada, que o inspirada na criação da história.


Então o corvo desce em espiral por um sonho em colapso, o único som que faz é  tal como um grito côncavo... 

Nela, temos Eric Draven, um rapaz que tem um relacionamento feliz com a sua noiva, Shelly. Eles são perdidamente apaixonados um pelo outro e é bem bonito de ver as cenas dos momentos felizes que passaram juntos. Eric vivia para Shelly e o amor dos dois era notável. Essas cenas de amor são desenhadas de uma forma bem suave, como lápis no papel mesmo. Completamente diferente das cenas de violência onde o preto prevalece e toma conta devido a grande quantidade de nanquim usada. Isso até ajuda o leitor na transição entre o passado e o presente. O passado onde tudo era mais feliz e suave para o presente cheio de dor e vingança.
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Um dia, ao saírem para comemorar seu recente noivado, após um dia que transbordara sorrisos e paixão, o carro do casal quebra e enquanto Eric tentava consertar, os dois são abordados por uma gangue. Os bandidos estavam completamente drogados e era visível a vontade deles de causar dor no primeiro que aparecesse em sua frente. Eric foi morto com dois tiros na cabeça, já Shelly foi violentada, morta e novamente violentada. As cenas são bem desenhadas e você pode ver o terror no olhar dos personagens. Essa é sem dúvida uma história por onde a tristeza está presente em cada página que você vira, até mesmo nas cenas felizes, porque sabemos que são apenas memórias de um personagem sofrendo de luto. 
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Através d'O Corvo, Eric Draven volta dos mortos com um único objetivo: vingar a morte de sua amada Shelly, indo atrás de cada um dos envolvidos no crime. A hq se divide entre a busca de Eric pelos criminosos e flashbacks do passado em momentos de felicidade com Shelly (com exceção das cenas do dia do crime). Após assumir o alter-ego d'O Corvo, Eric se torna implacável. Ele não sente remorso ao ir se vingando de cada um dos criminosos e também não sente dor física quando ferido. Isso é algo curioso, até, afinal, por mais que a dor física não exista mais para ele, o personagem está sempre dentro de uma aura de dor, culpa e saudade. O seu luto é tão espesso que é quase possível de o tocar. 
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Ler essa hq mexeu comigo porque você pode notar claramente o quanto o autor despejou ali a sua dor real para com a morte de sua namorada. Não fora algo que aconteceu da mesma forma brutal como na sua obra porém a dor ali é nítida e escrever a história o ajudou a lidar com o próprio luto.
O Corvo acompanha Eric em sua jornada atuando como uma consciência, uma versão mais sombria do Grilo Falante do Pinóquio ao meu ver, lhe dando conselhos e o auxiliando na sua trajetória para concluir a sua vingança. Os capítulos trazem pequeno poemas e reflexões em meio as cenas pesadas e gostei bastante quando cheguei ao final e pude entender melhor a metáfora do cavalo que aparece preso aos arames no começo da história representando toda a culpa do personagem por não poder ter sido capaz de se perdoar pela morte de Shelly. 
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Apesar da violência contida nas páginas, eu achei que a mesma ficou bem em segundo plano, não sendo o foco da história em si. Quando terminei de ler pude notar que o foco ali era o perdão. Era uma história violenta e de vingança sim, porém o perdão próprio vinha em primeiro lugar. Eric não conseguia se libertar da dor por conta de toda a culpa que sentia, que carregava em seus ombros.
Ver também como ele lidava com a garotinha Sherry que lhe lembrava da sua amada foi bem bacana porque ela trouxe um lado que não o leitor ainda não tinha visto nele quando já estava como a persona do Corvo. As duas cenas onde esteve com Sherry mostraram que apesar de tudo, o personagem mantinha um pouco da doçura que perdera por conta do sofrimento.
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Se você gosta de histórias mais pesadas e até mesmo tristes, com violência e que falam sobre redenção, essa é uma ótima pedida. A hq tem uma adaptação famosa para o cinema do ano de 1994. O filme ganhou destaque porque o ator que interpretava o protagonista Eric Draven, o Brandon Lee (filho do também falecido ator, Bruce Lee), morreu durante as filmagens quando levou um tiro de uma bala de verdade (deveriam ser balas de festim dentro da arma durante a cena mas um estranho, infeliz e fatal engano aconteceu). Isso levou o autor James O'Barr a se culpar pela morte do amigo, ele mesmo conta na introdução como o apoio da própria esposa de Brandon o ajudou a não se culpar por mais uma morte. Como não vi a adaptação (já deu para notarem que eu leio muito mas não vejo tantos filmes assim), não tenho como saber se ela é realmente boa ou se sua fama se deve apenas a morte de Lee.
Foto: Acervo Pessoal - Parágrafo Cult
A história da hq é muito boa. Fiquei surpresa pela qualidade da obra. Tocante e melancólica até dizer chega. É uma jornada de dor e vingança até se alcançar o perdão e a liberdade. Indico para quem gosta e para quem não gosta de quadrinhos, até porque esse é um clássico. A Darkside fez um belo trabalho na diagramação do livro que vem com capa dura e várias ilustrações e capítulos que foram adicionados anos depois pelo próprio autor. 
Uma curiosidade é que o nome de Eric foi inspirado em O Fantasma da Ópera, já o de Shelly veio da autora de Frankenstein, a Mary Shelley.

Nota: 5,0/5,0