Sinopse: Em Paris, no ano de 1738, nasceu Jean Baptiste Grennouille. Filho de uma feirante, ele veio ao mundo em uma barraca de peixe na cidade mais suja e fedorenta do mundo ocidental no século XVII. Após a morte de sua mãe, sobrevive a doenças e pestes em diversos lares miseráveis. Contra todos os prognósticos, Grennouille acaba desenvolvendo duas características que mudariam a sua vida - ao mesmo tempo que não tinha nenhum cheiro, ele era dotado de um olfato apuradíssimo. Este último talento permite que deixe para trás a pobreza para brilhar na indústria da perfumaria. Mas Grennouille, um personagem amoral, não ambiciona a fama ou fortuna que a sua habilidade poderia lhe proporcionar, mas um poder maior sobre as pessoas, baseado na sedução dos odores sobre a alma humana. Assim, Grennouille dedica-se obsessivamente, e sem recuar diante do crime, à preparação de um perfume literalmente irresistível, que permitisse conquistar e dominar qualquer um que o sentisse.

Um bom livro é aquele que nos prende do começo ao fim, que nos deixa fascinado não apenas pela história em si como também pela forma como as palavras nos guiam através dos acontecimentos. Me senti assim lendo esse livro. Ele foi lançado em 1985, mesmo ano da edição que eu tenho aqui. Já tinha ouvido falar apenas do filme, porém nunca tinha o assistido. Me pareceu ser apenas mais uma história de psicopatas. Em mais uma de minhas aventuras pelo sebo, esse livro foi colocado em meu caminho e virou uma parte de mim nos dias que se seguiram pois não desgrudei dele até o fim.

E como todos os monstros geniais, aos quais um evento externo deita um trilho reto dentro da caótica espiral de suas almas, Grenouille não se desviou mais daquilo que acreditava ter reconhecido como direcionamento do seu destino. Agora se tornou claro para ele porque se atinha de modo tão tenaz a sua vida: tinha de ser um criador de perfumes. E não um qualquer. O maior perfumista de todos os tempos. - Página 49

Juro que eu não imaginei que fosse gostar tanto. A história é simples e fluída. Do tipo que você lê sem nenhuma dificuldade e que quando percebe, o livro já caminha para o fim. O enredo nos conta a história, desde seu nascimento, de Jean-Baptiste Grenouille, um rapaz que não tem cheiro porém que tem o olfato tão sensível que consegue sentir o cheiro de tudo e todos. Cada pedrinha no chão, cabelo, cada objeto. Tudo. O que faz com que ele "veja" mais através dos cheiros do que pelos olhos em si, como um predador muito silencioso, observador e extremamente perigoso.

Centenas de milhares de odores não pareciam ter mais nenhum valor diante desse único aroma. Este era o supremo princípio, de acordo com que os demais deveriam de se ordenar. Era a pura beleza, beleza pura. - Página 46

Desde o seu nascimento, Jean-Baptiste é rejeitado. Pela mãe, pelos padres e amas de leite. As pessoas se sentiam invadidas, ameaçadas pelo jovem que parecia saber tudo sobre eles apenas através de seus cheiros. Apesar da vida sofrida, das doenças e maus tratos, indo contra todas as expectativas da época, Grennouille cresce sem se deixar ser derrubado. 
O personagem é quieto, inteligente, observador e extremamente ambicioso. Principalmente quando, ao perceber a sua falta de cheiro natural, algo que o chocara extremamente já que para ele, não havia nada no mundo que não cheirasse, decide criar um odor para si. Algo que faça com que todos o amem, o vejam. E ele já tivera a oportunidade de conhecer alguém que carregava esse cheiro. Uma jovem de cabelos ruivos que ainda não desabrochara totalmente para a vida adulta, onde seu cheiro chegaria em seu ápice. Mas ele podia esperar. Tinha tempo, apesar de estar ansioso. Até lá, poderia aperfeiçoar a melhor forma de extrair o perfume de algo vivo. 

Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até  sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar, gritar e chorar, chorar de prazer, sem saber o por quê, cair de joelhos (...) Queria ser o Deus onipotente do aroma, como fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que isso estava em seu poder. Pois as pessoas podem fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. - Página 162

Os assassinatos não são em nenhum momento o grande foco do livro e sim o próprio assassino. Ele é um homem que não conhece do amor. A primeira vez em que mata no livro me chocou porque era nítido que todo o prazer que estupradores sentem ao abusarem de uma vítima, ele sentia apenas ao cheirá-la. Era algo íntimo e assustador. 
Mantendo esse foco, por saber que os cheiros, mesmo que as pessoas não percebam, podem influenciar as massas, ele se prepara pacientemente para alcançar seu objetivo. Sem pressa alguma. O final do livro foi bem surpreendente porém satisfatório. Me deixou por um momento perdida nos meus pensamentos sobre o que havia acabado de ler.

Não havia brilho louco em seus olhos nem uma louca máscara lhe vestiu o rosto. Não estava fora de si. Estava com o espírito tão claro e alegre que até ficou se perguntando por que queria isso. E disse para si mesmo que o queria por ser a última e absoluta maldade. E deu uma risadinha muito satisfeita. Pareca completamente inocente, como qualquer homem que está feliz. - Página 163

O livro é narrado em terceira pessoa através de diálogos rápidos. Eu achei que por se passar em meados de 1700, a narrativa seria toda rebuscada mas não é o caso aqui. Apenas vez ou outra que vi a leitura empacar um pouquinho mas nada tão gritante. Também não é o tipo de livro para chocar, deixar desconfortável. Ele traz é um questionamento: vale a pena tudo para conseguir alcançar seu objetivo?

Nota: ★